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Queda das importações encarece frete das exportações, diz diretor da Maersk

A queda das importações é saudada pelo governo e por muitos economistas como uma importante ajuda na missão de reequilibrar as contas públicas e tirar o Brasil da atualrecessão. Mas esse recuo causa um efeito colateral indesejado que, no limite, atrapalha o comércio internacional do país: o aumento dos fretes para as exportações brasileiras.


O raciocínio é simples: importações menores significam menos navios aportando por aqui e, por isso, menos cargueiros voltando aos seus países de origem com produtos brasileiros. “Com a queda das importações, há menos espaço disponível nos navios para as exportações”, explica o diretor superintendente da Maersk para o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, Antonio Dominguez. Como os embarques para o exterior estão crescendo devido ao câmbio mais favorável e à crise no mercado interno, prevalece a velha lei do mercado: mais gente disputando menos espaço no navio resulta em fretes mais altos. Segundo Dominguez, já se fala, no mercado, de um aumento de 20% dos fretes pagos por exportadores brasileiros.


Mesmo neste caso, sente-se a (má) influência da falta de infraestrutura adequada no país. Segundo Dominguez, a dragagem dos portos melhoraria a situação, pois permitiria que embarcações maiores ou carregadas com mais carga aportassem e partissem do país. Confira a entrevista de Dominguez a O Financista:


O Financista: Olhando para o resto do ano, qual é a sua expectativa em relação ao comércio internacional brasileiro? Antonio Dominguez: Os números do primeiro trimestre mostram uma leve melhora. Estamos vendo uma luz no fim do túnel. Continuamos acreditando no Brasil, mas é preciso que o novo governo invista em infraestrutura e feche mais acordos bilaterais.


O Financista: Quais são os gargalos que travam o comércio internacional do Brasil? Dominguez: O primeiro grande gargalo é a queda das importações. Nossa pesquisa mostra que as importações caíram 31% no primeiro trimestre. Já são quatro trimestres consecutivos de queda. Isso gera um efeito considerável no transporte de cargas. Se as importações brasileiras caem, são necessários menos navios aportando no país. Logo, há menos navios também para embarcar as exportações do Brasil. Há menos espaço e menos contêineres. Um exemplo é que, em dezembro do ano passado, havia seis navios chegando por semana da Ásia para o Brasil. Agora, são apenas três.


O Financista: Com isso, a oferta de navios para embarcar a carga para a Ásia cai também... Dominguez: Sim. O Brasil sempre foi um importador líquido. Então, só havia duas opções: ou o navio voltava vazio para o exterior, ou cobrava um frete muito barato para não partir vazio do Brasil. De certa forma, os armadores subsidiaram as exportações brasileiras por muitos anos para ocupar sua frota.


O Financista: Agora, com o aumento das exportações, os fretes subiram quanto? Dominguez: É muito difícil fazer uma média, porque o frete depende de muitos fatores, como o tipo de produto e o destino. Mas já se fala de um reajuste médio de 20% no frete. Só há duas soluções: ou os exportadores aceitam um aumento; ou arcam com os custos de trazer navios vazios de outros países para despachar sua carga.


O Financista: Na prática, que solução eles estão aceitando? Dominguez: O aumento de preço.


O Financista: Temer e seu chanceler, José Serra, mostraram-se dispostos a incrementar o comércio com outros países. Como o senhor avalia isso? Dominguez: Estamos otimistas. O novo governo está falando que o Brasil necessita de novos e melhores acordos bilaterais. O Brasil precisa de novos parceiros. Veja o caso da Rússia, que sempre foi uma grande consumidora de carne brasileira. Os russos também estão em crise. Acho que o Brasil precisa fechar rapidamente um acordo com a União Europeia. Outro foco deve ser o Oriente Médio, que consome muito frango. A China também está comprando bastante carne brasileira.


O Financista: Muita gente diz que o Mercosul amarra o Brasil. Sendo o responsável pelas operações da Maersk em quatro países do bloco, o senhor também sente essa dificuldade? Dominguez: É possível o Brasil conviver com o Mercosul. Além disso, há sinais importantes de mudança na Argentina, após a posse de Macri. Aqui no Brasil também, com o novo governo. Mas existe uma grande diferença entre a costa Oeste e a costa Leste da América do Sul. Os países do Oeste são muito mais focados em comércio internacional. Basta ver o Acordo Transpacífico.


O Financista: Exportadores brasileiros reclamam que o dólar ao redor de R$ 3,50 dificulta as vendas. O senhor também percebe isso? Dominguez: Ainda não temos dados para afirmar se atrapalha ou não. O que podemos dizer é que, com base na pesquisa do primeiro trimestre, as exportações cresceram 16% sobre o mesmo período do ano passado.


O Financista: Em relação à infraestrutura, qual é a medida mais urgente para melhorar a competitividade do país? Dominguez: A mais importante é a dragagem dos portos brasileiros. Se você aumentar a profundidade dos portos, será possível trazer navios maiores ou com mais carga. Isso aumenta a competitividade, porque significa mais espaço para embarcar os produtos. Hoje, para atracar nos portos brasileiros, os navios precisam ser menores ou transportar menos carga, para ficarem mais leves. A realidade é que o Brasil tem muitos portos, mas poucos podem receber navios de grande porte.


O Financista: Neste sentido, o novo governo quer acelerar a concessão dos portos, mas os investidores não se interessaram... Dominguez: Há muitas coisas para se fazer no Brasil e, talvez, as concessões não sejam as primeiras da lista. Mas, do lado dos investidores, o que se percebe é que eles esperam que o discurso do governo se transforme em realizações concretas.


O Financista: A Maersk investiu US$ 2,2 bilhões em 16 navios especificamente para o Brasil. Quais são os planos da empresa para o país? Dominguez: Continuamos acreditando no país e acreditamos que uma melhora virá, mas não estamos planejando novos investimentos por enquanto...


O Financista: Qual é o sinal que a Maersk espera do Brasil para voltar a investir? Dominguez: A melhoria das importações. Importações em queda significam pouca confiança dos consumidores, poucos investimentos das empresas. Logo, não há necessidade de muitos navios de carga para o país. Quando as importações começarem a cair menos ou pararem de cair, será um bom sinal.


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